Kamilla Cardoso pode ser a renovação de que o basquete feminino brasileiro tanto precisa


Foto: Reprodução

No último dia 21 de abril, a Confederação Brasileira de Basquete – CBB divulgou os nomes das 17 atletas escolhidas pelo técnico José Neto para a disputa da AmericaCup, que ocorrerá no mês de junho, em Porto Rico.

Mesmo sendo apenas uma pré-lista, já que a competição permite somente a inscrição de 12 representantes de cada seleção, destacam-se a continuidade da resiliente pivô de 39 anos, Érika de Souza – de longe minha jogadora favorita – e as aparições das jovens promessas Maria Paula Albiero e Kamilla Cardoso, que atuam nos Estados Unidos.

Apesar de Maria Paula e Kamilla, vale ressaltar que, desde que José Neto assumiu o comando da seleção, quase não houve rodízio de atletas nas convocações, mantendo o time como um álbum de figurinhas repetidas; um jogo de cartas marcadas.

O método de não se mexer em time que está ganhando funcionou apenas no início, com o Brasil se consagrando campeão do Pan de 2019, em Lima, no Peru, após mais de 20 anos da última conquista do título – desconsiderando o fato de a seleção norte-americana, a melhor do mundo, ter sido formada por um esquadrão de universitárias, não levando sequer uma profissional da WNBA – principal liga feminina do mundo.

Para ser mais enfático, o atual elenco é formado por exatas 12 jogadoras que defenderam o Brasil no último Pan-americano – fato que pode ser coincidência ou não –, e conta com uma média geral de idade beirando os 28 anos. E esse número muito se deve ao garrafão da seleção, que possui uma média de 29 anos, considerando as pivôs e alas-pivôs.

Entretanto, este cenário pode ser alterado com uma futura e provável passagem de bastão das experientes Érika, Clarissa e Nadia para as talentosas Damiris, Kamilla e Stephanie Soares – a grandalhona de quase dois metros que ficou de fora da lista de José Neto.

Mesmo com o retrospecto repetitivo nas chamadas do técnico da seleção canarinha, um aspecto muito me agradou na convocação de 21 de abril: a estreia da pivô Kamilla Cardoso com o manto verde e amarelo. Vinda da Universidade de South Carolina, com passagens marcantes pelo High School – ensino médio dos EUA – e pela Universidade de Syracuse, onde recebeu o prêmio de melhor caloura e Codefensora do ano da conferência ACC, na última temporada da NCAA.

No alto de seus 6’7” de altura (2,01m), a gigante teve médias de 13,6 pontos, 8 rebotes e 2,7 tocos por jogo, sendo um dos destaques de Syracuse, em seu primeiro ano de College, após absurdas estatísticas de 24.1 pontos, 15,8 rebotes, 9,2 tocos, e 4,3 assistências, além de ser nomeada McDonald All American e 1st time All American, em seu último ano de High School, em 2019/20.

Na contramão das demais pivôs com uma altura tão elevada, a atleta de 20 anos é versátil, com um ótimo tempo de bola para bloqueios e rebotes, um corpo forte e um interessante QI ofensivo combinado a um bom jogo de pés. Ao contrário do que tem se visto nos dias atuais, a mais jovem aprendiz de Érika sabe desequilibrar suas defensoras com o que tem de melhor, sua força e altura – fatores que a tornam dominante debaixo do aro, com quase 60% de acertos de seus arremessos de quadra –, deixando os tiros de três pontos para suas colegas de equipe. Seu único defeito é algo que persegue há décadas as grandes e os grandes pivôs: o lance livre. Pois, vamos combinar, iguais 60% de acerto em um arremesso parado e sem marcação não é algo animador, mas pode ser facilmente corrigido.

Para finalizar, uma crítica e um respiro… Em um país como o nosso, que oferece péssimas condições de trabalho às atletas mulheres, de quaisquer modalidades, e que pouco incentiva, planeja e investe no esporte como todo, é preciso que nós, quanto sociedade, paremos por um instante e reflitamos como estamos hoje, e o que queremos para o amanhã. Porque, para um amante do basquete brasileiro, ver uma equipe que já ergueu inúmeros troféus com Maria Helena, Heleninha, Paula, Hortência, Janeth, e tantas outras, é lastimável encarar a dura realidade de não ganhar nada e ainda ficar de fora de uma olimpíada – o que é algo inédito na história brasileira, desde que o país começou a competir nesta modalidade, em 1992. Todavia, é com otimismo que avisto um futuro, não tão longínquo, repleto de Kamillas, Damiris, Érikas, Hortências etc, que colocará novamente o Brasil no lugar que jamais deveria ter saído.

Lista de convocadas: as armadoras Debora Costa, Alana Gonçalo e Maria Paula Albiero; alas-armadoras Tainá Paixão, Isabela Ramona, Patty Teixeira e Tássia Carcavalli; alas Tati Pacheco, Thayná Silva, Rapha Monteiro e Mariane Carvalho; alas-pivôs Damiris Dantas e Mariana Dias; além das pivôs Érika de Souza, Nadia Colhado, Clarissa dos Santos e Kamilla Cardoso

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